Verinha Flexa Ribeiro/Diretora

Projeto Andrews 90 anos

Entrevista com Verinha Flexa Ribeiro/Diretora

Rio de Janeiro, 3 de outubro de 2007

Entrevistadora Regina Hippolito

 

Onde e quando nasceu?

 

VFR: Nasci no Rio de Janeiro no dia 8 de setembro de 1943, sou carioca da gema.

 

Quem foram seus pais?

 

VFR: Maria Helena e Carlos Flexa Ribeiro.

 

Onde você fez seus primeiros estudos?

 

VFR: No Colégio Andrews.

 

Fale um pouco sobre essa sua entrada no colégio, suas lembranças.

 

VFR: Entrei com uns quatro anos, na Praia de Botafogo, onde fiz alfabetização e primário. Naquela época, por lei, era preciso ter 11 anos completos  até 30 de junho para fazer o exame de admissão ao ginásio, que era aplicado com fiscais do MEC. Como eu só fazia anos em setembro, tive que repetir o quarto ano primário, mesmo tendo passado. Isso me deixou revoltadíssima!

 

E dos professores do primário você se lembra? Quais ficaram marcados?

 

VFR: A dona Olga, que faleceu recentemente, a dona Juraci Werneck, as professoras de Francês e Inglês, ambas maravilhosas - a Mrs. Mary, uma inglesa linda e a mademoiselle Margot, uma velhinha, magérrima, que usava um rouge redondo nas bochechas; e a dona Geni de Araújo.

 

Como foi seu curso ginasial?

 

VFR: Eram muitos professores, um para cada matéria. O Fundamental foi o professor Carlos Shankrow Maia, de Ciências, era uma peça, além do senhor Gouveia de Português. Comecei o meu primeiro ano de Latim com o professor Olmar Gutierrez da Silveira, estudei com ele até o terceiro ano Clássico.

 

 

 

 

Você se lembra dos seus colegas do ginásio?

 

VFR: Me lembro do Roberto Maranhão, de quem sou amiga até hoje. Ele tinha um irmão gêmeo chamado Raul. E da portuguesa Isabel, que era uma graça de pessoa, mas a gente se separou. Tinha também a Ruth Chindler e a Silvinha Castro.

 

Como era estudar em um colégio onde seu pai era o Diretor?

 

VFR: Claro que tinha problemas, mas acho que para mim foi tranquilo.

 

Você terminou o ginásio e foi fazer o curso Clássico?

 

VFR: Fui da primeira turma do Clássico experimental. Houve uma flexibilização da Lei de diretrizes e bases e com isso cada escola poderia escolher seu currículo. A grade era muito bacana. Tinha pouca Matemática, não tinha Física nem Química; ficou definido que era humanismo. Tinha Psicologia, Filosofia, Sociologia, História da Arte. Foi uma maravilha.

 

Você se lembra dos professores do Clássico? Você foi aluna da madame Jacobina?

 

VFR: Da madame Jacobina e do professor Olmar, de Latim, no Ginásio e no Clássico. Tinha aula com o professor Antônio Gomes Penna de Fisolofia e Psicologia. Era uma maravilha. Ele levou, entre outros convidados, o José Guilherme Melchior, que era aluno dele na UFRJ, para dar aula.

 

 

 

Você chegou a participar das peças que a madame Jacobina montava?

 

VFR: Uma vez só, foi uma experiência tenebrosa. Foi uma peça chamada L’anglais tel qu’on le parle. Eu ia aparecer sem dizer nada, porque não era para a minha turma, era uma turma dos mais velhos. Eu abri a cortina, olhei para a plateia, fiquei em prantos e saí correndo. Foi traumático. Nunca mais fiz teatro, nem gosto de lembrar.

 

 

Fale um pouco sobre seus colegas do Clássico.

 

VFR: Além dos amigos que vieram do Ginásio, tinha a Bárbara  Parvoli, que foi casada com o Hugo Tolentino; o Carlos Eduardo Lins e Silva, filho do Dr. Evandro. Tinha também a Sulamis Daim, que tinha ido passar um ano em Londres e voltou para a minha turma. Era uma turma pequena, mas muito boa.

 

Você foi da turma do Renato Machado, do Ari Coslov?

 

VFR: Eles todos são um ano mais velhos do que eu, mas eram meus amigos porque eu só tinha olhos para os mais velhos. Eu fiquei muito  amiga do Renato e ele me convidou para ir a uma excursão do colégio a Volta Redonda. Eu fui e adorei. Tinha o Ari, o Renato, o Zózimo, o Sebastião – com quem vim a casar.

 

Quando você se formou? Você cursou alguma faculdade?

 

VFR: Em 1960 ou 1961. Primeiro eu fui para a Europa passar três meses. Fiz vestibular para letras na PUC e passei muito bem. Cursei uns dois anos e me casei. Esse curso era para esperar marido, o que era muito usual naquela época. Eu fui ser apanhada por uma certa vontade de ter autonomia muito mais tarde na minha vida. Meu ideal na época era ser uma jovem esposa. Meu pai se assustou quando soube que eu ia casar. Ele me perguntou: “você não vai ser uma mulher de carreira?” Respondi: “Você sempre me disse que eu era a mademoiselle de la maison, como você quer que eu faça carreira?”

 

Você retomou seus estudos?

 

VFR: Retomei. Depois comecei a querer trabalhar e logo pensei no colégio. Combinei com o Edgar que eu ia trabalhar meio expediente, mas o papai não deixou e então eu parei a faculdade outra vez. Acabei não me formando no curso superior.

 

Quando você começou a trabalhar no Andrews? Fale sobre sua experiência no colégio.

 

VFR: Em 1972. Eu vim trabalhar na Visconde de Silva. Fiz de tudo. Passei nota (naquela época era na mão), fiz boletim. Fui inspetora e depois coordenadora. Quando eu cheguei a supervisora era a Marisa Fiúza de Castro. A Adélia veio ser coordenadora pedagógica da quinta e sexta séries. O quadro de professores era parecido com o do meu tempo: D. Olga, Maria Aparecida Vieira França, Edith Adelaide da Silva Alves.

 

Como era o relacionamento entre a Visconde e a Praia de Botafogo, era como se fossem dois colégios distintos?

 

VFR: Nessa primeira fase era, inclusive pelas idades. Depois a Visconde de  Silva foi criando corpo e chegamos a dividir séries iniciais do Ginásio com a Praia de Botafogo. Havia a quinta série na Visconde de Silva de manhã e na Praia a tarde, e depois também a sexta. Com isso, a Visconde foi crescendo, ombreando. Durante algum tempo acho até que tinha uma certa rivalidade.

 

Como era o seu contato com a Praia de Botafogo?

 

VFR: Eu tinha algumas reuniões com o Edgar Flexa. Também ia na época da matrícula, porque só eu entendia as particularidades da Visconde de Silva. A matrícula do colégio todo era feita na Praia de Botafogo. Passava mais de um mês trabalhando na Praia nesse período.

 

Você acha que teve fases diferentes no Andrews?

 

VFR: Certamente teve. Teve a época de ouro, a golden age. Foi a minha época. Me lembro que o Zózimo fez uma nota na coluna dele porque  havia uma festa para a turma do ano tal, que se auto intitulava como a melhor turma, e ele disse: “que absurdo, todo mundo sabe que a melhor turma foi a minha”. O panorama no Brasil passou por muitas diferenças, o período da capital federal no Rio era uma coisa emocionante, tinha protestos de rua, greve dos bondes, são coisas que eu assistia sem participar, mas que marcavam. E esse foi o meu período de colégio.

 

Mas como profissional no colégio, você destacaria fases diferentes?

 

VFR: Houve o período que o Edgar Azevedo dirigiu.

 

Você sentiu alguma diferença entre a direção do seu pai e a do Edgard Azevedo?

 

VFR: Com certeza, muito mais rígido. A caraterística do colégio de uma certa flexibilidade, uma certa liberalidade, foi muito encolhida nesse período.

 

O que já foi dito é que na época do dr. Carlos o colégio tinha uma visão muito mais humanista, voltada para as artes e que o Edgar foi mudando um pouco isso, você concorda?

 

VFR: Sim.

 

Você acha que essa vertente humanista retoma com o Edgar Flexa Ribeiro?

 

VFR: Retoma, sobretudo na Visconde. A Praia tinha o Científico, começa a pressão do vestibular. Na Visconde de Silva o trabalho de Artes visuais era muito importante, e na Praia de Botafogo  o teatro.

 

Com a reunião de toda a escola na Visconde de Silva, uma nova geração assumindo a Direção, você acha que teve mudanças nos rumos do colégio?

 

VFR: A reunião foi muito harmônica. Há quem diga que faz falta um certo rito de passagem para os alunos que iam para a Praia de Botafogo. Eles se despediam do pátio, da mangueira, da mamãe que vinha buscar; essas mamães continuaram com a tendência de buscar os filhos com 13 ou 14 anos. Isso agora também já está caindo no natural, eles estão conseguindo se impor. A direção do Pedro, que já tem um tempo, está procurando enfrentar novos desafios.

 

 

De uns tempos para cá muitas escolas fecharam, o que você acha que o Andrews tem que está resistindo ao tempo e vai fazer 90 anos em 2008?

 

VFR: Eu acho que o Andrews, como ambiente, é único.

 

Qual a importância do Colégio Andrews na sua vida?

 

VFR: Ele vinha para mim na mamadeira, no almoço, no jantar. A importância do Colégio Andrews é muito grande, antecede a minha experiência de escola tanto como aluna quanto profissionalmente. É  inquestionável. Mas eu posso medir a importância que o colégio tinha para aquelas famílias, uma mãe me disse recentemente: “foi a melhor escolha que eu já fiz na minha vida, meus filhos são dois homens, estão maravilhosos, e eu agradeço ao colégio que me ajudou a fazer a educação deles, e os amigos que eles fizeram.” Acho que dá para eu entender, independente do fator familiar, a importância do colégio na vida das pessoas.

 

Você viu muita diferença no colégio da época que você estudou para a época que eles estudaram?

 

VFR: O colégio nunca ficou parado pedagogicamente, mas não tinha muita diferença. Acho que hoje em dia mudou muito em termos pedagógicos. Tem um aspecto construtivista que começa a fazer uma diferença. Antes, a vida do aluno era centrada no estudo. Acho que agora tem mais opções.

 

Muito obrigada, Verinha, pelo seu depoimento.

 

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