Pedro Flexa Ribeiro
A Psicopedagogia: uma bússola para navegar em mares de I.A.
Ao longo do século XX, o campo da Educação foi atravessado por um longo debate acerca do papel do ensino e da Escola frente ao acelerado processo de industrialização.
O período entre guerras, época do rádio, da imprensa e da mídia centralizada, foi marcado pela polarização e por totalitarismos. Uma corrente entendia que caberia à Escola preparar mão de obra para o processo de industrialização. Outros propunham que o ensino mobilizasse a juventude para repensar criticamente a realidade social e transformá-la. Atribuíam ao Estado o papel de agente propulsor, através da escola pública laica, gratuita, obrigatória e única. A ideia era de que o dualismo do sistema de ensino fosse superado pelo currículo unitário, estabelecido de forma centralizada pelo Estado: uma mesma escola para todos.
Cem anos depois, a polarização mudou os seus contornos, mas nos vemos agora convocados pela acelerada Revolução Tecnológica. Se a escola de outros tempos foi concebida em contexto de escassez de informações, hoje já não é esse o caso. Os alunos que chegam às escolas são “nativos digitais”, gerações que já nascem imersas nas redes sociais. O conhecimento e as informações lhes chegam em fluxo livre, pelas redes e algoritmos. A antiga escassez deu lugar a um excesso de informações, que convém filtrar.
A exponencial aceleração tecnológica dos tempos atuais revela que o debate do século XX estava fora de foco. Somos forçados a reconhecer que mais do que a Escola ou a Indústria, são as mídias que pautam a Educação de cada época. McLuhan tinha razão: “o meio é a mensagem”.
No contexto das escolas e do ensino, é diante do nosso “não saber” que devemos conduzir o trabalho das escolas e a educação das próximas gerações. Essa reflexão requer uma curadoria das referências que serão utilizadas, tanto no que se refere à abordagem tecnológica quanto aos pressupostos teóricos que sustentam cada Projeto educativo.
Tanto a I.A. e a Revolução Tecnológica quanto as abordagens que sustentam Projetos Educativos têm, elas mesmas, suas origens, inspirações, histórias e “geopolíticas”. Por isso, convém mapear suas respectivas gêneses e cartografias.
No caso da I.A., o mapa atual revela uma acirrada disputa de liderança entre a China e o Vale do Silício, destemidos e em certa medida descuidados. Parecem seguir a lógica de que os fins justificam os meios. Bem atrás, a Europa, (guardiã dos valores ocidentais e direitos humanos), mais cautelosa, emite regulamentações que a fazem “perder terreno’.
Em todos os sistemas de ensino o trabalho das escolas vêm sofrendo o impacto de sucessivas ondas de novas tecnologias que as assolam em ritmo e intensidade cada vez maior em função das mudanças em todo o contexto cultural. Há razoável consenso de que a disseminação dos “smartphones” teria se dado a partir do ano de 2007. Desde então, passaram-se já quase 20 anos, ao longo dos quais escolas e consultórios testemunharam grandes transformações na infância e na adolescência. Cabe lembrar, ainda, que neste março de 2026, completam-se 6 anos desde que as escolas suspenderam as atividades presenciais em virtude da pandemia COVID-19. O remoto emergencial implicou a desmaterialização de processos. A sala de aula se dissolveu e migrou para as telas.
Decorridos 6 anos, o “novo normal” se estabeleceu já com a chegada da I.A., que subverteu vários processos, como a avaliação. E agora, em movimento inverso, anuncia-se que a “Internet das coisas” levará a I.A. a se emancipar das telas para permear todos os ambientes que nos cercam: na escola, na sociedade, mas também em casa, interagindo com os bebês desde o berço, aninhado em ursos de pelúcia, bonecas e outros brinquedos. Evidentemente, preocupam as consequências para as formas de subjetivação e para o psiquismo das próximas gerações.
Nesse mar revolto, as escolas arriscam se desnortear e tomar decisões equivocadas, que as afastem do rumo pretendido. Para não se perderem, convém que elejam referenciais consistentes. Essa escolha requer, também ela, que nos situemos em outra geopolítica.
Vivemos num contexto em que a expectativa ou mesmo a exigência de instantaneidade torna-se cada vez mais presente. Ao invés de elaborar a angústia e encontrar a função do sintoma, procura-se suprimi-los com analgesia. Por isso, entre as correntes teóricas de Educacionais que vigoram hoje, ganham popularidade as abordagens ligadas à Teoria Cognitiva Comportamental (TCC), à neurociência organicista, e à medicação da infância e adolescência.
No Andrews, no entanto, procuramos singrar essas ondas usando como bússola os pressupostos teóricos que inspiram o nosso Projeto Educativo: mais especificamente, os da Psicopedagogia em sua vertente mais próxima da teoria psicanalítica, que considera o desejo e a capacidade de autoria dos alunos. Em coerência com nossa trajetória já percorrida, recorremos à contribuição de autores como Alícia Fernandez, Winnicott, Visca, Piaget e Vigotsky. Esses referenciais têm nos possibilitado boas condições para mapear rotas, ainda que navegando contra a corrente e contra os ventos. No fim, muito decorre do conceito que se tenha acerca da Condição Humana. E, diante da incompletude com que chegamos ao mundo, da importância do ambiente no qual se é imerso ao nascer, e da plasticidade do psiquismo humano, nos cabe considerar os efeitos que o cotidiano permeado pelas tecnologias trará para o desenvolvimento de nossos netos.
Uma possibilidade a ser considerada pela Escola é recorrer aos pressupostos e à concepção de Ser Humano que fundamentam o seu Projeto Educativo como conteúdo a ser ensinado aos seus alunos. Assim, quando hoje discutimos a inserção de I.A. na escola, convém ampliar o escopo e pensar esse tema como mais uma parte da Educação Midiática que será proporcionada às próximas gerações.
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